"Quero que me mostrem em que texto da bíblia está escrito que meu filho merecia morrer da forma com que foi assassinado”, protesta Angélica Ivo - mãe de rapaz de 14 anos morto num crime de ódio.
A juíza Patrícia Aciolli, 47, assassinada numa emboscada nesta madrugada de sexta-feira, 12, quando chegava em casa, em Niterói, cuidava do caso Alexandre Ivo, 14, torturado e morto, em junho de 2010, em São Gonçalo.
Aciolli ouviria na noite de ontem os acusados de terem assassinado o adolescente, mas, como passava das 22h, preferiu remarcar a audiência para 12 de setembro. Um novo sorteio determinará que juiz assumirá o caso.
Ao Tupi.DOC, Angélica Ivo, mãe de Alexandre, disse ser hoje um dia “não muito feliz”. Num comunicado mais cedo, a família se disse “triste”e “abalada” com o assassinato da juíza.
“Patrícia Aciolli era a minha referência sobre o que é a Justiça”, disse Angélica ao Tupi.DOC, relatando que, ao assumir o caso, a juíza lhe dissera que “independente” de ser ela a vítima, “ouviria os dois lados”.“Era essa a correção com que tratava seu trabalho”.
Angélica Ivo chama à reflexão o protocolo de proteção dos magistrados. “Minha visão é crítica”, diz. “Alguém que exerce o cargo como ela– de forma íntegra – não precisa solicitar proteção. Tem de ter proteção”.
Apesar de toda a exposição, Angélica lembra ao Tupi.DOC que “todo o interesse da mídia” só ocorreu porque investigou por conta própria – em paralelo ao trabalho que vinha sendo realizado pela polícia. “Acabei tendo que provar que, ao contrário do que dizia a polícia, não era um crime de queima de arquivo por dívida com drogas”, como chegou-se a divulgar.
Barganha
Perguntada como se sentia ao saber da proposta do senador Magno Malta (PR-ES) de nominar a PLC 122 - projeto de lei que equipara a violência homofóbica ao crime de racismo - de Lei Alexandre Ivo, Angélica classificou a proposta de oportunista.
“Magno Malta está sendo bem oportunista”, reclamou. “Ele e o senador Marcelo Crivella sempre se colocaram contra a proposta. Eu não aceito que barganhem com o nome do meu filho”, afirmou.
“Apesar disso, sinto-me feliz por pensarem no Alexandre para nominarem uma reivindicação legítima do movimento LGBT”, disse, acrescentando também acreditar que, muitas vezes, para se conquistar algo, é preciso ceder em alguma coisa. “Mas quero ser consultada. Não aceito barganha”.
“Aos que utilizam a religião contra a proposta de lei, quero que me mostrem em que texto da bíblia está escrito que meu filho merecia morrer da forma com que foi assassinado”, protesta Angélica, que tirou desta luta força para viver e tentar Justiça.
Ao Tupi.DOC, o deputado Marcelo Freixo (PSOL), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Alerj, disse-se consternado com o assassinato da juíza Patrícia Aciolli, com quem trabalhara durante a CPI das milícias. Freixo considerou sua morte “uma perda irreparável”.
“Trabalhamos juntos. Ela enfrentou as milícias de São Gonçalo. Uma pessoa que pagou o preço não da sua coragem, mas da covardia dos outros”, disse. “É lamentável que o Poder Judiciário não garanta a segurança dos juízes no exercício de seu trabalho. Não interessa se ela pediu proteção ou não”.
Marcelo Freixo afirmou que vai acompanhar a investigação do assassinato da juíza “por obrigação moral, pessoal e profissional”.