05/04/18 - 17:05

#DeixaElaTrabalhar

Mulheres ainda sofrem diariamente com o assédio sexual, machismo e o desrespeito na profissão. Entenda a campanha

por: Rachel Siston

Ao longo das décadas, as mulheres vêm superando dificuldades e quebrando barreiras. Durante muito tempo a figura do feminino era representada apenas pelas suas habilidades domésticas. A essência do papel da mulher se resumia em ser esposa, mãe e “dona do lar”. Mas isso não bastou. Agora, as mulheres ocupam diferentes esferas da sociedade, assumem cargos e tarefas que só eram ocupados por homens. Por isso, a emancipação feminina deu voz para elas expressarem problemas que ainda persistem nos dias atuais.

Mesmo com todas as conquistas das mulheres, os casos em que elas são desrespeitadas e sofrem assédio sexual no exercício de sua profissão ainda são comuns. Como aconteceu recentemente com a repórter Bruna Dealtry, do canal de TV Esporte Interativo. Ela fazia a cobertura de uma partida entre o Vasco da Gama e Universidade do Chile, pela Libertadores da América, quando foi surpreendida por um torcedor que tentou beijá-la. Após o ocorrido, a repórter desabafou nas redes sociais.

Foto: Instagram/Bruna Dealtry

Entretanto, Bruna não foi a primeira a sofrer com o assédio. No futebol, um assunto subjetivamente inserido no “universo masculino”, a presença feminina é algo cada vez mas comum. E por isso, outras jornalistas esportivas que também passaram por essas situações, se juntaram para expôr o abuso e lançaram nas redes sociais a campanha #DeixaElaTrabalhar, que encoraja mulheres e protesta por mais respeito na profissão.

A campanha teve uma repercussão grandiosa, e além das jornalistas do esporte, as jornalistas de outras áreas e até clubes de futebol do país aderiram à causa.

Foto: Reprodução/Twitter

Foto: Reprodução/Twitter

A única mulher a integrar o time do esporte da Super Rádio Tupi, Jéssica Duarte, acredita que “as mulheres irão conquistar cada vez mais seu espaço no mundo do esporte, seja como atleta, locutora, jornalista, comentarista”. Ela diz ainda que vê uma possível mudança deste cenário “a partir do respeito, e com as mulheres sabendo se impor quando houver situações de desrespeito. Não dá mais para ficar calada”, completa. Mas em outros setores elas são a maioria.

Pelos corredores da rádio, nas produções, as mulheres se destacam e rompem barreiras. Em 2017, a SUPER RÁDIO TUPI apostou na sua primeira mulher noticiarista, Rachel Amorim, que além noticiar os fatos no “Sentinelas” e no “Tupi Notícias”, também faz o trabalho de editoria. Rachel reconhece que ainda temos muito caminho pela frente para que abusos acabem, e se diz triste por saber que ainda existem diversos casos de assédio sexual contra mulheres no exercício de sua profissão.

Outro expoente feminino da SUPER RÁDIO TUPI, a jornalista e apresentadora Isabele Benito, defende que as mulheres precisam se unir para combater os casos de machismo e assédio. Em seu programa diário na rádio, Isabele não coloca só o dedo na cara e o pingo no i, ela encoraja e levanta outras mulheres a lutarem pelos seus direitos.

Apesar de toda a mobilização seja na mídia ou na internet, ainda existem pessoas que tratam os casos de assédio como brincadeira ou exagero das vítimas.

Foto: Comentário sobre o assédio da repórter Bruna Dealtry/Youtube

O psicanalista, Rafael Souza, explica que muitas pessoas não atribuem gravidade ao assédio, por terem crescido e se formado em um ambiente onde sempre houve predominância do homem sobre a mulher. Ele explica que,  homem, por motivações culturais, acredita que pode se apropriar ou tocar uma mulher, e isso tem a ver com a formação cultural patriarcal, que acredita na predominância do masculino sobre o feminino. “Acontece por conta da própria estrutura familiar, que ainda é patriarcal. E é esse homem, com valores patriarcais impregnados, que chega para uma mulher com uma estrutura arcaica, no momento em que ela passa por um processo de libertação ao longo da história, em que ela está se empoderando”, explicou.

Ainda de acordo com o psicanalista, é possível reverter essa situação, quando há revisão dos valores arcaicos. “Só há mudança por meio do processo de educação, pela família revisando seus valores. Entender que é preciso acabar com a noção patriarcal de que o homem pode se apropriar, comandar e desprezar a posição da mulher”, ressalta Rafael. Desta forma entende-se que o homem não é, por imposição, o centro da estrutura familiar, mas que há uma conjugalidade.

Segundo a psicóloga Cláudia Melo, o assédio pode causar problemas tanto para o desenvolvimento da profissão, quanto para a autoestima da vítima. “No ambiente profissional, o assédio acarreta um baixo rendimento da vítima, porque ela está o tempo todo sendo questionada sobre seu trabalho. O assédio vai descaracterizando a pessoa, e ela vai perdendo seu potencial e não entende como conseguiu chegar onde chegou. Provoca uma mudança radical no comportamento”, afirma. E isso pode acarretar em problemas psicológicos, como uma mudança trágica na personalidade e na identidade,  depressão, síndrome do pânico.

Desta forma, faz-se necessário a luta feminina para mudar a situação da condição da mulher em uma sociedade em que o machismo ainda se faz presente. Que elas tenham liberdade sobre seu corpo, sua profissão, suas escolhas e que sejam respeitadas em suas decisões pessoais. A mudança precisa acontecer para que a mulher não sofra crimes por questões de gênero. E, por isso, a voz feminina brada ainda mais alto. O preconceito não irá impedir que elas continuem conquistando seu espaço na sociedade. O desrespeito não será mais tolerado. Chega de assédio. #DeixaElaTrabalhar.

CONFIRA O VÍDEO:

 

Edição e Supervisão: Bruna Lima

 

 

0 comentários