05/11/18 - 15:40

Palavra Amiga / Quézia

   Boa tarde heleno e família tupi.

   Tenho  54 anos, sou viúva e trabalho como cuidadora de idosos. Quando eu conheci o “Luís”, há uns 20 anos atrás, ele logo me avisou que a família dele era muito intrometida nos assuntos pessoais dele. Mas eu não imaginava o quão cruéis eles poderiam ser. Quando o “Luís” me levou para conhecê-los eu estava nervosa, mas eles não foram compreensivos. Disseram que eu era esquisita e que era para o “Luís” encontrar uma namorada menos “doida”.

   E falaram isso tudo na minha frente. Fiquei desapontada, mas achei que eu é que tinha passado uma primeira impressão ruim. Mas o “Luís” me contou que eles sempre são assim com quem não é da família. Quando nos casamos, eles foram um pouco mais gentis no início e ficaram muito felizes quando engravidei dos meus filhos gêmeos. Mas notei ao longo dos anos que eles nunca chegaram a gostar de mim, só me toleravam por causa do “Luís”. Eu não sou uma pessoa ruim, tentei ser simpática e me esforcei para agradar, mas realmente nunca chegaram a me aceitar como um membro da família. Sempre sonhei que a família do meu marido seria também minha família, mas isso nunca chegou a acontecer.

   Nesses anos achei melhor não pensar nisso e focar na família que eu construí com o “Luís”, meus filhos cresceram em um ambiente sem brigas nem insultos. Foram muito bem educados e muito amados. Eles nunca me deram problemas e o “Luís” sempre foi um excelente pai. Hoje em dia, meus filhos já são adultos e por isso não foi tão traumatizante o que eles presenciaram ano passado. Há um ano meu marido morreu atropelado por um motorista bêbado, ele andava pela calçada com meus dois filhos, mas o carro subiu no meio fio e acertou os três. O “Luís” morreu, mas meus filhos sobreviveram e se recuperaram.

   Heleno, quando alguém que amamos sofre com alguma doença, nós normalmente nos preparamos para o pior. Mas meu marido era saudável e foi um baque terrível na minha família perder um homem tão bom quanto o “Luís”. Eu decidi alugar a casa onde eu morava com meu marido e ir morar com um dos meus filhos, que me ajudou muito e me fez aos poucos me sentir melhor. O que me impressionou foi o fato da família do “Luís” nunca mais ter ido me procurar. Eles nunca nem me ligaram para perguntar se eu precisava de alguma coisa, se estava difícil para mim ou como eu me sentia. A última vez que eu vi todos foi no funeral do “Luís”. Eu fiz muitas dívidas no enterro e eles também não me ajudaram com nada. Como nunca me deram muita atenção eu também achei melhor nem ficar pensando neles.

   Fui vivendo minha vida tentando superar a morte da pessoa que eu mais amava. Como não tinha conseguido alugar a minha casa, consegui renda extra vendendo algumas quentinhas no meu emprego. Até que há duas semanas o irmão do “Luís”, meu cunhado, me ligou. Mas ele não perguntou nada sobre mim ou sobre meus filhos, ele só perguntou se eu ainda tinha alugado a casa. Meu cunhado pediu para ficar na casa e ainda por cima pediu um desconto, já que somos “família”. Eu disse que ia pensar e que responderia em um mês. Mas ao invés de esperar, ele veio até a minha casa e disse que se eu não aceitasse, seria porque eu só me importava com a família do “Luís” enquanto ele estava vivo.

  E que agora eu estou me comportando com ingratidão e que se continuar assim, ele nunca mais falaria com os meus filhos. Eu fiquei muito nervosa, mas achei melhor não conversar com os meus filhos, porque sei que eles ficariam muito magoados com esse tipo de ameaça do próprio tio. Heleno, não quero alugar a casa, mas não quero ter uma relação ainda pior com a família do “Luís” e sem saber o que fazer eu preciso muito de uma “Palavra Amiga”.

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